Relacionamentos

Você realmente perdoou ou apenas desistiu de esperar um pedido de desculpas?

Nem toda mágoa que silencia foi perdoada. Às vezes, apenas desistimos de esperar que o outro reconheça o que fez. Entenda essa diferença.

Imagem de destaque do artigo Você realmente perdoou ou apenas desistiu de esperar um pedido de desculpas?

Você já ensaiou mentalmente um pedido de desculpas que nunca recebeu?

Não o seu pedido de desculpas. O do outro.

Talvez você nunca tenha admitido isso, mas, em algum momento, imaginou aquela pessoa chegando e dizendo exatamente aquilo que você precisava ouvir. Não precisava ser um discurso de cinema. Bastava algo como: “Eu sei que te machuquei. Eu errei. Hoje consigo entender o que fiz.”

Só isso.

Mas esse momento não aconteceu.

Os dias passaram, depois os meses. Em alguns casos, passaram anos. A vida continuou, você voltou a trabalhar, saiu, conheceu outras pessoas, riu de outras coisas e parou de tocar no assunto. Quando alguém perguntou se ainda estava magoado, talvez tenha respondido com uma segurança quase automática:

“Não. Já perdoei.”

E pode ser verdade.

Mas existe outra possibilidade, bem mais desconfortável e, justamente por isso, interessante: talvez você não tenha exatamente perdoado. Talvez apenas tenha percebido que o pedido de desculpas não viria e tenha desistido de esperá-lo.

As duas coisas parecem iguais quando vistas de fora.

Por dentro, nem sempre são.

Algumas histórias terminam sem a frase que estávamos esperando

Existe uma fantasia silenciosa que acompanha muitas de nossas mágoas: a de que um dia o outro compreenderá.

A pessoa que nos humilhou perceberá o que fez. O pai ou a mãe reconhecerá aquilo que faltou. O ex-companheiro entenderá a dimensão da ferida que deixou. O amigo que nos decepcionou finalmente enxergará nossa versão da história. O chefe que nos tratou injustamente perceberá que exagerou.

Enquanto isso não acontece, uma parte de nós permanece estranhamente ligada à cena.

É curioso porque podemos até ter rompido a relação, bloqueado o número, apagado as fotografias e parado de falar sobre o assunto. Ainda assim, internamente, alguma conversa continua acontecendo.

Você imagina o que diria caso encontrasse aquela pessoa.

Pensa no que responderia se ela mandasse uma mensagem.

Às vezes, entra no perfil dela apenas para “ver uma coisa”, expressão bastante versátil que inventamos para não precisar admitir que ainda existe alguma curiosidade emocional por ali.

E não é necessariamente porque ainda amamos aquela pessoa ou desejamos retomar a relação.

Às vezes, queremos apenas que ela reconheça aquilo que aconteceu.

Essa diferença é importante.

Porque há relações das quais saímos, mas das quais continuamos esperando alguma coisa.

O pedido de desculpas não fala apenas sobre culpa

Quando alguém nos machuca e depois reconhece o que fez, acontece algo que vai além da educação ou da boa convivência.

Há uma espécie de confirmação da nossa experiência.

“Então eu não estava exagerando.”

“Então aquilo realmente aconteceu.”

“Então você percebeu que me feriu.”

É por isso que a ausência de um pedido de desculpas pode incomodar tanto. O que fica pendente não é somente a frase “me desculpe”. Em determinadas situações, o que permanece pendente é a necessidade de que nossa versão da experiência seja reconhecida por quem participou dela.

E aqui entramos em um terreno emocional muito interessante.

Às vezes, não queremos apenas que o outro se arrependa. Queremos que ele confirme que aquilo que sentimos fazia sentido.

Isso aparece com muita clareza em conflitos familiares.

Imagine uma filha adulta tentando conversar com a mãe sobre determinadas experiências da infância. Ela não espera necessariamente que a mãe volte no tempo e faça tudo diferente. Isso seria impossível. O que talvez espere é ouvir:

“Eu consigo perceber hoje que aquilo foi difícil para você.”

Mas recebe:

“Você sempre foi muito sensível.”

A conversa aparentemente termina ali.

Emocionalmente, talvez não.

Porque agora existem duas dores. Aquela que já estava presente e uma segunda, produzida pela sensação de que a primeira sequer foi reconhecida.

Na minha experiência de escuta, algo que sempre me chama atenção é como algumas pessoas continuam tentando explicar uma dor para alguém que já demonstrou inúmeras vezes não estar disposto, ou talvez não estar emocionalmente preparado, para compreendê-la.

Mudam as palavras, procuram exemplos melhores, retomam conversas antigas, apresentam provas, mensagens, datas.

Como se existisse uma formulação perfeita capaz de finalmente produzir no outro a consciência que faltou.

Nem sempre existe.

Há um luto escondido dentro de certas mágoas

Freud, ao escrever sobre o luto, estava interessado no que acontece psiquicamente quando precisamos lidar com uma perda. Embora seu texto clássico Luto e melancolia não seja um estudo sobre pedidos de desculpas, há uma ideia que nos ajuda a pensar sobre essas situações: perder alguma coisa não significa apenas lidar com aquilo que desapareceu concretamente. Existe também um trabalho psíquico de desligamento daquilo em que investimos afetivamente.

E talvez seja justamente aí que algumas histórias se compliquem.

Porque nem sempre estamos elaborando apenas a perda de uma pessoa.

Podemos estar elaborando a perda daquilo que esperávamos receber dela.

A mãe que nunca reconhecerá determinadas falhas.

O pai que provavelmente jamais conseguirá dizer “eu deveria ter estado mais presente”.

O antigo parceiro que continuará contando a história de um jeito completamente diferente.

O amigo que prefere acreditar que “não foi nada demais”.

Nesse sentido, desistir de esperar um pedido de desculpas pode envolver um luto muito particular: o luto pela reparação que gostaríamos que viesse do outro.

E talvez seja por isso que essa desistência possa doer antes de aliviar.

Enquanto esperamos, ainda existe uma possibilidade.

Quando deixamos de esperar, precisamos admitir que talvez aquela conversa nunca aconteça.

Perdoar não é declarar que aquilo deixou de importar

Há uma ideia popular de perdão que considero bastante problemática.

É aquela em que perdoar parece significar alcançar uma espécie de serenidade absoluta, lembrar do acontecimento sem sentir nada e, de preferência, desejar coisas maravilhosas para quem nos machucou.

Isso estabelece um padrão emocional quase impossível.

Ser humano não funciona assim.

Podemos compreender alguém e ainda sentir raiva. Podemos não desejar vingança e continuar considerando injusto o que aconteceu. Podemos reconstruir uma relação sem recuperar a confiança anterior. Também podemos perdoar e decidir que aquela pessoa não terá mais o mesmo lugar em nossa vida.

A ambivalência não é uma falha moral.

Melanie Klein dedicou parte importante de sua obra justamente à complexidade da convivência entre amor, hostilidade, culpa e desejo de reparação. Em sua formulação, amadurecer psiquicamente envolve suportar que sentimentos contraditórios possam existir em relação à mesma pessoa, em vez de precisar transformá-la em alguém inteiramente bom ou inteiramente mau. A reparação aparece ligada à possibilidade de reconhecer danos e preservar vínculos internos de maneira mais integrada.

Isso nos ajuda a abandonar uma visão infantilizada do perdão.

Não precisamos concluir que alguém era maravilhoso para deixar de odiá-lo.

Também não precisamos concluir que era um monstro.

Às vezes, uma elaboração mais madura chega a uma frase bem menos cinematográfica:

“Essa pessoa me machucou. Talvez tivesse suas próprias limitações. Eu consigo compreender algumas delas. Outras, não. O que aconteceu teve consequências. E eu não preciso continuar esperando que ela enxergue tudo isso para seguir minha vida.”

Pode parecer pouco.

Psiquicamente, pode ser enorme.

Existe uma diferença entre reparação e absolvição

Melanie Klein também oferece uma palavra especialmente útil para essa conversa: reparação.

Na teoria kleiniana, reparação não significa simplesmente pedir desculpas. O conceito é muito mais profundo e está relacionado à possibilidade de reconhecer que nossos impulsos, fantasias e ações podem atingir aquilo que amamos, despertando preocupação e movimentos de restauração. A própria obra de Klein relaciona amor, culpa e reparação como partes de uma vida emocional complexa, e não como sentimentos isolados uns dos outros.

Trazendo essa ideia para as relações cotidianas, podemos perceber por que certos pedidos de desculpas parecem vazios.

“Desculpa se você se sentiu assim.”

Tecnicamente, há uma palavra parecida com desculpa nessa frase.

Emocionalmente, talvez não exista reconhecimento algum.

Um pedido de desculpas capaz de produzir alguma reparação costuma envolver a capacidade de reconhecer que o outro foi afetado. Não significa necessariamente concordar com toda a interpretação dele, mas admitir que nossas ações tiveram consequências.

Talvez seja justamente essa experiência que tantas pessoas esperem durante anos.

Não querem assistir ao sofrimento de quem as feriu.

Querem saber que sua dor existiu também na consciência do outro.

Só que existe um problema: quando nossa possibilidade de seguir adiante depende exclusivamente dessa consciência, entregamos a alguém uma função psíquica muito importante.

A pessoa que nos feriu passa a deter também a chave imaginária da nossa libertação.

Quando o “eu perdoei” significa apenas “eu cansei”

Há um momento em que esperar também cansa.

Cansa esperar a mensagem.

Cansa reconstruir mentalmente a conversa.

Cansa explicar para amigos o que aconteceu.

Cansa imaginar como seria encontrar aquela pessoa novamente.

E então algo muda.

A expectativa perde força.

Isso pode ser confundido com perdão porque a raiva diminui. Mas nem sempre a diminuição da raiva significa que houve elaboração. Às vezes houve esgotamento. Em outras situações, houve afastamento emocional. Em outras, aconteceu algo muito saudável: aquela história simplesmente deixou de ocupar o centro da vida.

Não existe uma única explicação.

É justamente por isso que considero mais interessante perguntar “o que aconteceu com essa mágoa?” do que simplesmente “você perdoou?”.

Talvez a pergunta mais reveladora seja outra:

Se essa pessoa aparecesse amanhã dizendo exatamente aquilo que você passou anos esperando ouvir, o que mudaria dentro de você?

A resposta pode surpreender.

Há quem descubra que ainda precisava desesperadamente daquelas palavras.

Há quem perceba que sentiria alívio.

Há quem sentisse raiva.

E existe quem descubra algo ainda mais estranho:

“Hoje já não faria diferença.”

Talvez seja nesse ponto que alguma transformação importante tenha realmente acontecido.

O outro pode nunca entender a história do jeito que você entende

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis das relações humanas.

Nós não controlamos a narrativa que os outros constroem sobre aquilo que viveram conosco.

Em sua memória, você pode ter sido abandonado.

Na memória do outro, ele apenas estava tentando sobreviver a uma fase difícil.

Você pode considerar determinada fala cruel.

Ele pode jurar que estava apenas sendo sincero.

Isso não significa que todas as versões tenham o mesmo peso ou que comportamentos prejudiciais devam ser relativizados. Significa apenas que duas pessoas podem participar do mesmo acontecimento e organizá-lo psiquicamente de maneiras muito diferentes.

E talvez algumas das nossas esperas mais longas nasçam da tentativa de fazer com que o outro finalmente habite a nossa versão da história.

Queremos que ele veja exatamente o que vimos.

Sinta exatamente o impacto que sentimos.

Reconheça exatamente a responsabilidade que atribuímos a ele.

Às vezes isso acontece.

Às vezes não.

E existe uma liberdade difícil de conquistar quando percebemos que nossa compreensão de uma experiência não precisa ser autorizada por quem participou dela.

Talvez o verdadeiro encerramento não venha da conversa final

Filmes adoram conversas finais.

As pessoas se encontram, dizem tudo aquilo que guardaram durante anos, choram um pouco, alguém olha pela janela e finalmente todos entendem o que aconteceu.

A vida real tem menos compromisso com roteiros bem fechados.

Algumas relações terminam com uma mensagem visualizada.

Algumas perguntas ficam sem resposta.

Algumas pessoas morrem antes que determinadas conversas aconteçam.

Outras continuam vivas, mas emocionalmente indisponíveis para elas.

E algumas simplesmente não acreditam que fizeram algo pelo qual deveriam pedir desculpas.

O encerramento, nesses casos, precisa ser construído sem a colaboração de quem participou da ferida.

Isso não significa fingir que não aconteceu.

Também não significa transformar sofrimento em gratidão, como se precisássemos agradecer por tudo aquilo que nos machucou para provar que evoluímos.

Significa talvez conseguir olhar para a própria história sem continuar negociando com um personagem que já não está realmente presente.

Há algo profundamente diferente entre dizer:

“Eu só vou ficar bem quando ele entender o que fez.”

e conseguir pensar:

“Eu gostaria que ele entendesse. Mas minha vida não ficará suspensa até que isso aconteça.”

A segunda frase não absolve ninguém.

Ela apenas devolve a vida para quem estava esperando.

E então, você perdoou?

Talvez sim.

Talvez não.

Talvez a palavra “perdão” nem seja a mais importante para aquilo que aconteceu com você.

Você pode ter elaborado a perda, reconhecido sua raiva, compreendido parte da história, aceitado aquilo que não consegue compreender e colocado limites que antes não conseguia colocar.

Pode ter deixado de amar.

Pode ainda amar e não querer mais aquela pessoa perto.

Pode ter percebido que não precisa odiar alguém para decidir que não deseja reconstruir uma relação.

Também pode ter simplesmente cansado de esperar.

E isso merece ser olhado com curiosidade, não com julgamento.

Porque há momentos em que desistir de receber determinada resposta não é desistir de si mesmo. É justamente o contrário.

É perceber que algumas pessoas jamais nos darão aquilo que imaginávamos precisar delas.

Na minha experiência de escuta, considero especialmente interessante o momento em que a pergunta deixa de ser “quando essa pessoa vai perceber o que fez comigo?” e começa lentamente a se transformar em “por que eu ainda preciso que seja justamente ela a confirmar aquilo que eu vivi?”.

Essa mudança não apaga a responsabilidade do outro.

Mas muda o lugar que ele ocupa dentro de nós.

Talvez perdoar não seja esquecer, absolver, reconciliar ou parar de sentir.

Talvez, em algumas histórias, seja chegar ao ponto em que o pedido de desculpas ainda seria bem-vindo, mas já não é mais necessário para organizar a própria vida.

E existe uma diferença enorme entre não receber aquilo que você esperava e continuar esperando para sempre.

Às vezes, a paz começa justamente quando percebemos essa diferença.

Fran Carvalho Psicanalista

Referências e leituras utilizadas

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

KLEIN, Melanie. Love, Guilt and Reparation (1937). In: Love, Guilt and Reparation and Other Works 1921–1945. London: Hogarth Press / Institute of Psycho-Analysis.

KLEIN, Melanie; RIVIERE, Joan. Love, Hate and Reparation. London: Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1937.

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Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Não oferece diagnóstico, tratamento individualizado nem substitui acompanhamento profissional.