Relacionamentos

Algumas pessoas não fogem do amor. Fogem do que o amor desperta

Nem sempre o afastamento significa falta de amor. Entenda por que a intimidade pode despertar medos, defesas e conflitos que nem percebemos.

Imagem de destaque do artigo Algumas pessoas não fogem do amor. Fogem do que o amor desperta

A conversa estava boa. Boa até demais.

As mensagens já não eram apenas aquelas respostas educadas que cabem entre uma tarefa e outra. Havia interesse. Perguntas. Fotografias do cotidiano. Um “chegou bem?” no fim da noite. Uma piada que só os dois entendiam. Aos poucos, aquela pessoa começava a ocupar um lugar.

Então alguma coisa mudou.

As respostas ficaram mais espaçadas. O entusiasmo diminuiu. Surgiram compromissos que antes não existiam. Aquilo que parecia caminhar naturalmente começou a ficar confuso e, quando finalmente veio alguma explicação, ela parecia pequena demais para justificar uma mudança tão grande.

“Não sei se quero um relacionamento agora.”

“Minha vida está complicada.”

“Você merece alguém que possa se entregar de verdade.”

Às vezes, quem está do outro lado conclui rapidamente que faltou sentimento. Afinal, parece lógico: se alguém gosta, aproxima-se; se não gosta, afasta-se.

Só que a vida emocional não é tão organizada assim.

Há pessoas que conseguem permanecer tranquilamente em uma relação enquanto ela ainda não representa grande coisa. Conseguem conversar, seduzir, demonstrar interesse e até imaginar um futuro. O problema começa justamente quando aquilo deixa de ser possibilidade e passa a ter importância.

Porque gostar de alguém não desperta apenas prazer.

Pode despertar medo.

E não necessariamente medo daquela pessoa.

Pode despertar o medo de precisar, de perder, de depender, de decepcionar, de ser abandonado, de não ser suficiente, de abrir mão de uma liberdade cuidadosamente construída ou simplesmente de descobrir que alguém passou a ter poder para ferir onde antes ninguém alcançava.

É nesse ponto que algumas histórias aparentemente inexplicáveis começam a fazer um pouco mais de sentido.

Enquanto não importa tanto, parece fácil

Existe uma segurança curiosa nas relações que ainda não se tornaram importantes.

Enquanto você não sabe se aquela pessoa ficará, também não precisa lidar completamente com a possibilidade de perdê-la. Enquanto não existe intimidade suficiente, algumas partes de você continuam protegidas. Enquanto tudo ainda pode ser chamado de “vamos ver no que dá”, existe uma espécie de saída de emergência emocional sempre disponível.

O problema é quando o outro começa a atravessar essa distância.

De repente, você percebe que espera a mensagem.

Percebe que ficou feliz porque ele lembrou de uma coisa que você contou dias atrás.

Percebe que gostaria que aquela pessoa estivesse presente em uma situação importante.

E talvez aconteça algo ainda mais desconcertante: você percebe que sentiria falta se ela fosse embora.

É aqui que o amor deixa de ser apenas agradável e começa a exigir alguma vulnerabilidade.

John Bowlby, ao desenvolver sua teoria do apego, mostrou como os vínculos afetivos estão profundamente relacionados às experiências de proximidade, segurança, separação e perda construídas ao longo da vida. Isso não significa que nossas relações adultas sejam cópias exatas da infância, muito menos que todo problema amoroso precise ser explicado pela relação com os pais. Significa algo mais interessante: nós não chegamos emocionalmente vazios a uma relação. Levamos conosco maneiras aprendidas de reconhecer segurança, interpretar distância e responder à possibilidade de perder alguém.

Talvez por isso duas pessoas possam viver praticamente a mesma situação e experimentá-la de maneiras completamente diferentes.

Para uma, a proximidade significa acolhimento.

Para outra, pode significar perigo.

O amor também nos coloca em risco

Há uma contradição pouco confortável nas relações afetivas: queremos ser importantes para alguém, mas quando alguém se torna importante para nós, ficamos vulneráveis.

Não existe vínculo significativo sem algum risco emocional.

Se aquela pessoa não significa nada, sua ausência provavelmente não altera muita coisa. Mas, quando ela passa a importar, nasce junto com o vínculo uma possibilidade desagradável: a perda.

Talvez seja por isso que algumas pessoas pareçam mudar justamente quando a relação está indo bem.

Isso costuma confundir muito quem está do outro lado.

“Mas nós não estávamos brigando.”

“Não aconteceu nada.”

“Estava tudo tão bem.”

Exatamente.

Às vezes, o que assustou não foi uma briga.

Foi perceber que estava ficando sério.

Na minha experiência de escuta, uma coisa que sempre me chama atenção quando falamos sobre relações humanas é nossa tendência a procurar a explicação apenas no acontecimento imediatamente anterior. Se alguém se afastou na terça-feira, procuramos alguma coisa que aconteceu na segunda.

Nem sempre encontraremos.

Porque aquilo que provocou a reação pode não estar inteiramente no presente.

O presente pode apenas ter tocado alguma coisa antiga.

Quando o presente encontra uma história que já estava ali

Freud percebeu algo que continua sendo particularmente provocador na compreensão das relações humanas: nós não repetimos apenas aquilo de que gostamos.

Também podemos repetir situações que nos fazem sofrer.

Em Além do Princípio do Prazer, publicado em 1920, ele desenvolveu sua reflexão sobre a compulsão à repetição, chamando atenção para a tendência de certos conteúdos e experiências retornarem mesmo quando não parecem produzir satisfação consciente. Isso não significa que alguém escolha sofrer deliberadamente. A questão é justamente outra: parte do que orienta nossas escolhas e reações não está completamente disponível à consciência.

Pense em alguém que passou anos dizendo que gostaria de encontrar uma pessoa carinhosa, disponível e emocionalmente presente.

Um dia encontra.

Nos primeiros meses, tudo parece maravilhoso.

Até que começa a se incomodar.

A atenção passa a parecer excessiva. O interesse começa a ser interpretado como cobrança. A disponibilidade, antes desejada, começa a produzir uma sensação estranha de sufocamento.

Curiosamente, pessoas distantes nunca produziram esse incômodo.

Com elas, havia ansiedade, espera e sofrimento, mas também havia algo conhecido.

É aqui que precisamos tomar cuidado com explicações fáceis.

Não significa que toda pessoa que se afasta de alguém disponível tenha “medo de amar”. Às vezes ela simplesmente perdeu o interesse. Às vezes percebeu incompatibilidades. Às vezes realmente não quer um relacionamento.

Mas existem situações em que aquilo que incomoda não é exatamente o outro.

É a experiência emocional que aquela proximidade produz.

Ser amado também pode ser desconfortável

Falamos muito sobre o sofrimento de não ser amado. Falamos menos sobre o desconforto que ser amado pode provocar.

Parece contraditório, eu sei.

Quem não gostaria de ser escolhido, desejado, valorizado e cuidado?

A questão é que receber afeto também exige alguma capacidade de acreditar nele.

Imagine alguém que passou boa parte da vida tentando provar que merece atenção. Talvez tenha aprendido, explicitamente ou não, que precisa ser útil, agradável, competente ou indispensável para conservar vínculos.

Então aparece alguém que simplesmente gosta dela.

Sem prova.

Sem competição.

Sem perseguição.

Isso pode ser maravilhoso.

E estranhamente desorganizante.

Porque o amor recebido também confronta aquilo que acreditamos sobre nós mesmos.

Se, em algum nível, uma pessoa carrega a convicção de que sempre será abandonada, encontrar alguém que permanece pode produzir um conflito difícil de explicar. Uma parte deseja acreditar. Outra procura desesperadamente a armadilha.

“Está bom demais.”

“Alguma coisa vai acontecer.”

“Quando ele me conhecer de verdade, vai embora.”

Então começa uma espécie de investigação emocional.

Uma demora na resposta ganha importância demais. Uma mudança de tom vira indício. Um fim de semana ocupado parece anunciar abandono.

E, às vezes, antes que o abandono imaginado aconteça, a própria pessoa começa a construir a distância.

Não porque não sente.

Talvez justamente porque começou a sentir demais.

Algumas defesas parecem decisões muito racionais

O psiquismo possui maneiras bastante sofisticadas de nos proteger daquilo que sentimos como ameaça. O curioso é que essas defesas nem sempre parecem defesas.

Elas podem parecer argumentos perfeitamente razoáveis.

De repente, aquela pessoa que parecia encantadora começa a ter defeitos insuportáveis.

O jeito de rir incomoda.

A maneira de escrever mensagens incomoda.

Ela é carinhosa demais.

Ou independente demais.

Ou presente demais.

Ou não manda mensagem exatamente na frequência considerada ideal.

Claro que incompatibilidades existem e precisam ser levadas a sério. Nem todo incômodo esconde um conflito inconsciente.

Mas vale observar quando a necessidade de encontrar defeitos aparece exatamente no momento em que a intimidade aumenta.

Às vezes, desvalorizar o outro é uma maneira eficiente de diminuir a importância que ele adquiriu.

Se eu conseguir convencer a mim mesmo de que você não é tão especial, talvez não precise admitir que sua ausência me afetaria.

É uma solução emocional engenhosa.

O problema é que ela funciona.

A pessoa reduz a ansiedade afastando aquilo que provocava ansiedade.

Só que reduz também a possibilidade do vínculo.

Existe uma diferença entre estar sozinho e conseguir ficar sozinho

Donald Winnicott escreveu um texto particularmente interessante chamado The Capacity to Be Alone, publicado em 1958, no qual relaciona a capacidade de estar só ao amadurecimento emocional.

À primeira vista, isso poderia parecer distante do nosso assunto.

Não é.

Existe uma diferença importante entre escolher a própria companhia e precisar manter os outros a uma distância segura.

Uma pessoa pode passar anos sem relacionamentos, viajar sozinha, morar sozinha, resolver tudo sozinha e ainda assim ter enorme dificuldade com a solidão emocional.

Independência prática e segurança emocional não são a mesma coisa.

Às vezes, o discurso da autossuficiência esconde uma regra silenciosa:

“Se eu não precisar de ninguém, ninguém poderá me faltar.”

Funciona até certo ponto.

Só existe um pequeno inconveniente nessa estratégia: para impedir completamente que alguém nos abandone, seria necessário impedir também que alguém realmente se aproximasse.

Quando alguém começa a enxergar partes que escondemos

Intimidade não é apenas compartilhar senha de streaming, conhecer a família ou deixar uma escova de dentes no banheiro do outro.

Intimidade é ser visto.

E ser visto pode ser assustador.

No início de uma relação, ainda conseguimos administrar cuidadosamente aquilo que mostramos. Escolhemos histórias, fotografias, opiniões e versões relativamente organizadas de nós mesmos.

Com o tempo, porém, aparecem as contradições.

A insegurança.

O ciúme que você jurava não sentir.

A necessidade de aprovação.

A dificuldade de pedir carinho.

A raiva.

O medo de não ser suficiente.

A intimidade vai retirando, pouco a pouco, a possibilidade de apresentar apenas a versão editada.

Talvez por isso algumas pessoas suportem melhor a conquista do que a permanência.

Conquistar permite impressionar.

Permanecer exige existir.

E existir diante de alguém inclui correr o risco de não ser admirável o tempo inteiro.

Às vezes, sair primeiro parece mais seguro

Existe uma lógica emocional bastante compreensível por trás de algumas rupturas antecipadas.

Se existe a possibilidade de você me abandonar, talvez seja menos doloroso eu ir embora antes.

Assim, pelo menos aparentemente, continuo no controle.

Não fui deixado.

Eu escolhi sair.

O problema é que o psiquismo pode confundir controle com segurança.

Bowlby dedicou parte importante de sua obra a compreender como separação, disponibilidade das figuras de apego e experiências de vínculo participam da organização emocional. Sua teoria não determina o destino amoroso de ninguém, mas oferece uma perspectiva útil: nossas expectativas sobre proximidade não surgem apenas quando começamos a namorar. Elas possuem uma história.

Por isso, uma pessoa pode desejar conscientemente uma relação estável e, ao mesmo tempo, experimentar enorme inquietação quando finalmente encontra estabilidade.

Não há necessariamente mentira nisso.

Há conflito.

Uma parte quer ficar.

Outra parte aprendeu que ficar pode custar caro.

Talvez a pergunta não seja “por que você foge?”

Quando alguém repete relações interrompidas sempre no momento em que a intimidade aumenta, costuma ouvir que precisa “parar de fugir”.

Nunca achei essa frase particularmente interessante.

Ela descreve o movimento, mas não investiga o que existe atrás dele.

Talvez exista uma pergunta melhor.

O que aconteceria se você ficasse?

Essa pergunta muda tudo.

Porque talvez a resposta não seja simplesmente “eu seria feliz”.

Talvez ficar significasse depender.

Talvez significasse confiar.

Talvez significasse admitir necessidade.

Talvez significasse descobrir que você não controla completamente o que sente.

Talvez significasse correr o risco de construir algo que poderia ser perdido.

E talvez significasse uma coisa ainda mais difícil: viver uma relação diferente daquelas que, por mais dolorosas que tenham sido, se tornaram familiares.

A repetição possui uma característica curiosa. O conhecido pode ser desconfortável e, ainda assim, transmitir uma estranha sensação de previsibilidade.

O novo não oferece essa garantia.

Perceber o padrão não significa conseguir mudá-lo imediatamente

Existe outra armadilha contemporânea que merece atenção.

A ideia de que basta compreender um comportamento para deixar de repeti-lo.

Seria ótimo.

Descobrimos numa terça-feira que temos medo de intimidade e acordamos emocionalmente resolvidos na quarta.

Infelizmente, a vida psíquica costuma exigir um pouco mais de trabalho.

Podemos compreender racionalmente uma coisa e continuar reagindo emocionalmente de outra maneira.

Podemos saber que aquela pessoa não representa alguém do passado e ainda assim sentir um medo semelhante.

Podemos perceber que estamos criando distância e, mesmo assim, sentir enorme dificuldade para fazer diferente.

A percepção não encerra necessariamente o conflito.

Mas muda nossa posição diante dele.

Quando começamos a reconhecer nossos movimentos, aquilo que antes parecia simplesmente “acontecer conosco” pode começar a ser observado.

E talvez seja justamente aí que alguma liberdade apareça.

Não a liberdade de nunca mais sentir medo.

Mas a possibilidade de não precisar obedecer automaticamente a ele.

Algo que observo com frequência quando penso sobre relações humanas é que costumamos perguntar se encontramos a pessoa certa, mas raramente perguntamos o que acontece dentro de nós quando alguém começa a ocupar o lugar que dizíamos desejar que alguém ocupasse.

Talvez essa segunda pergunta seja muito mais desconfortável.

Porque ela tira o foco exclusivamente do outro.

E nos obriga a olhar para aquilo que a presença dele movimenta em nós.

No fim, algumas pessoas realmente não querem permanecer. Algumas relações simplesmente não funcionam. Alguns afastamentos são apenas escolhas legítimas e não precisam esconder nenhuma grande explicação psicológica.

Mas existem outros casos.

Casos em que alguém deseja profundamente ser amado e, quando finalmente encontra alguma possibilidade de vínculo, começa inexplicavelmente a recuar.

Talvez, nessas situações, a pergunta não seja apenas se essa pessoa tem medo do amor.

Talvez seja preciso perguntar algo um pouco mais delicado:

o que se torna possível perder quando, finalmente, encontramos algo que gostaríamos de não perder?

Talvez algumas pessoas não estejam fugindo do amor.

Talvez estejam tentando escapar do momento em que percebem que alguém passou a importar.

E, às vezes, o que mais assusta em amar não é descobrir quem é o outro.

É descobrir o que a existência dele desperta em nós.

Fran Carvalho Psicanalista

Referências e leituras utilizadas

BOWLBY, John. Attachment and Loss: Volume I, Attachment. New York: Basic Books, 1969. A obra desenvolve a formulação de Bowlby sobre comportamento de apego, formação dos vínculos e sua função no desenvolvimento emocional.

FREUD, Sigmund. Beyond the Pleasure Principle [Além do Princípio do Prazer]. 1920. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. XVIII. O texto fundamenta a discussão apresentada no artigo sobre repetição e sobre comportamentos que não podem ser compreendidos apenas pela busca consciente de prazer.

WINNICOTT, D. W. “The Capacity to Be Alone”. International Journal of Psychoanalysis, v. 39, p. 416–420, 1958. O trabalho discute a capacidade de estar só como uma conquista relacionada ao desenvolvimento e à maturidade emocional.

Aviso sobre conteúdo

Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Não oferece diagnóstico, tratamento individualizado nem substitui acompanhamento profissional.